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Doria foi o maior adversário de Doria – Jovem Pan

ISAAC FONTANA/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – 23/05/2022

Ao lado da mulher, Bia Doria, à frente de uma bandeira do Brasil, João Doria faz sinal de reza com as mãos
Ao lado da mulher, Bia Doria, à frente de uma bandeira do Brasil, João Doria faz sinal de reza com as mãos
Vencedor das prévias do PSDB, João Doria desistiu da candidatura à Presidência após pressão de uma ala de seu partido

Fiz uma pesquisa nas notícias sobre a desistência de Doria da pré-campanha à Presidência. Praticamente todos os órgãos de imprensa falaram dele apenas mencionando aspectos negativos. Tive dificuldade para pinçar aqui e ali alguns comentários favoráveis. Foi impressionante como sua meteórica carreira política se esfacelou. Após vencer, até de forma surpreendente, as eleições para a Prefeitura de São Paulo em 2016, conquistou também o governo do Estado apenas dois anos depois, em 2018. Dava a impressão de ter engatado uma quinta marcha, e que ninguém conseguiria barrar sua chegada à Presidência do país. Procurou demonstrar que se autodenominar “gestor” não era só marketing, pois colocava a mão na massa e tentava provar seu estilo realizador. Talvez eu tenha sido um dos primeiros a fazer esse prognóstico de que ele era um bom nome para chegar ao Palácio do Planalto

Ao assumir a Secretaria de Desestatização da prefeitura, Wilson Poit me procurou para fazer uma reciclagem em oratória. Nas nossas conversas, eu dizia ao Poit: “O João tem tudo para ser o presidente do país em pouco tempo”. Acompanho sua trajetória há mais de 40 anos. No início dos anos 1980, fui entrevistado por ele em um programa que apresentava na rádio Excelsior de São Paulo, hoje CBN. Muitos anos depois, voltou a me entrevistar em seu programa de televisão. Fui recepcionado sempre com muita gentileza. 

Por esses e outros motivos, acompanhei de perto a carreira política de Doria. Não se pode dizer que foi louvável sua saída prematura da prefeitura. Demonstrou uma avidez que o afastou de parte do seu eleitorado. Assim como não pegou bem a forma como se aproximou de Bolsonaro, com aquela história de Bolsodoria, só com interesses eleitoreiros. Temos de considerar que naquele momento deixou de dar apoio a Alckmin, que também concorria à Presidência. Por isso, o ex-prefeito foi visto por muitos como traidor. E, se não bastasse, assim que venceu as eleições para o governo do Estado, imediatamente se voltou contra Bolsonaro, transformando-o em seu maior adversário. A pecha de traidor ficou ainda mais evidenciada. Em seguida, apostou todas as fichas para ser o protagonista da vacinação no país. Mais uma vez estabelecendo confronto com o governo federal.

Se pensarmos bem, para atingir o objetivo de chegar à chefia do Executivo federal, aparentemente, não havia outro caminho. Teria que deixar a prefeitura no meio da gestão, para queimar etapas. Precisava abandonar Alckmin para poder surfar na onda bolsonarista e vencer a eleição para governador. Em seguida, não havia outra alternativa a não ser transformar Bolsonaro na sua maior oposição. E, finalmente, aproveitar a pandemia e mostrar seu espírito de pioneiro na vacinação. Só que, em vez de encurtar caminho, minar a imagem do presidente e ser o protagonista nas vacinas, o que conseguiu foi um resultado desastroso. Os eleitores perceberam as suas intenções e o repudiaram. Em todas as pesquisas seu nome aparecia entre os últimos colocados. Por mais que se esforçasse para mostrar suas realizações, essa mensagem não seduzia a população. Para onde ia era recebido por quase ninguém. 

A consequência natural foi a de encontrar resistências dentro do seu próprio partido. Embora tenha vencido as prévias que o escolheram como pré-candidato, uma ala cada vez mais numerosa do PSDB não aceitava o seu nome para concorrer. De certa forma, foi traído pelos seus próprios pares. Vendo que as portas todas estavam se fechando, sem outra alternativa, decidiu desistir de se candidatar. Errou na estratégia e tropeçou nas próprias pernas. Sua carreira política dá a impressão de estar destroçada. Dificilmente terá novas oportunidades. Toda a luta obstinada que empreendeu serviu apenas para transformá-lo em seu próprio adversário. Doria foi vencido por Doria. 

Já vivi anos suficientes, entretanto, para aprender que em política nada pode ser visto como definitivo e imutável. Basta citar o exemplo de Jânio Quadros. Após renunciar ao cargo de presidente depois de poucos meses de ser eleito, todos imaginavam que ele jamais conseguiria retornar à vida política. Voltou derrotando o poderoso Fernando Henrique Cardoso, em 1985, e se elegeu prefeito de São Paulo. Por enquanto Doria vai se afastar. Ficará ausente desse burburinho político. No futuro, quem sabe, com as voltas e reviravoltas da vida, ele se reencontre consigo mesmo. Agora adquiriu experiência. E com sua inteligência e excelente capacidade de comunicação, talvez descubra um caminho melhor para ser seguido.

Siga pelo Instagram: @polito.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Fonte: jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/reinaldo-polito/doria-foi-o-maior-adversario-de-doria.html

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